\n'; document.write(barra); } } changePage();
![]()
I-CHING

O
ORÁCULO CHINÊS

Ao mesmo tempo em que é um livro no qual se encontram todas as raízes da sabedoria chinesa recolhida durante milênios, o I CHING é também uma ferramenta de adivinhação, um instrumento de auxilio que orienta a prática dessa sabedoria.
Basicamente, é um livro de consultas composto por 64 hexagramas, ou seja, desenhos formados pelas diversas combinações de seis linhas superpostas, ora inteira, ora interrompidas. A cada hexagrama corresponde um texto interpretativo. E eles têm sido usados na china desde as mais remotas épocas até os tempos atuais, respondendo a perguntas sobre saúde, relacionamentos pessoais, comunitários, assim como às mais íntimas questões humanas: destino e relações pessoais, decisões importantes, entre outras.
De acordo com os escritores chineses, sua origem é do tempo do Imperador FU HSI, aproximadamente 3.000AC., a quem se atribui a invenção dos oito trigramas básicos do I CHING. Por volta de 1.150 AC, esse trigramas foram apresentados pelo rei Wen, e nasceram as combinações que deram origem aos 64 hexagramas. O Rei Wen também deu as primeiras interpretações aos hexagramas, chamadas sentenças ou julgamentos. Seu filho, o Duque de Chou, dedicou-se ao estudo individual das linhas dos hexagramas e acrescentou suas interpretações ao livro. E Confúcio (551-479 AC), ao descobri-lo, passou a dedicar-se intensamente ao seu estudo, escrevendo explicações para cada hexagrama.
O I CHING chegou ao Ocidente em 1834, mas só em 1923 surgiu a melhor tradução, feita pelo sinólogo alemão Richard Wilhelm.
A experiência recomenda considerar o I CHING como se fosse um companheiro vivo, inteligente e muito delicado. O oráculo, segundo a tradição chinesa, nunca falha, fornecendo respostas corretas. . Através dele o consulente entra em contato com o seu inconsciente, e por isso se diz que quem responde não é senão quem pergunta.
Tradicionalmente, a consulta do I CHING, na China, cercava-se de certos cuidados ritualísticos. O livro era envolvido em um pedaço de seda e as varetas utilizadas para formar o hexagrama guardadas em uma caixa de madeira. Para tirar qualquer perigo de idolatria, o livro era sempre colocado a uma altura inferior à de seu dono. Para fazer a consulta, a pessoa devia sentar-se sempre voltada para o Sul, a região do Sol, da luz, pois assim procedendo havia o sentido de voltar-se para o que permite ver e entender. Durante a consulta ainda era utilizado o incenso para purificar, e, antes de proceder a divisão das varetas, era preciso curvar-se três vezes e passa-las o mesmo número de vezes pela fumaça do incenso, em movimento anti-horário.
Mas todo esse ritual é dispensável (será?); desde que se conserve uma atitude de concentração e respeito, o I CHING pode ser consultado através de métodos mais simples. Inicialmente ensinarei jogar com o das moedas, mais rápido, usado há muito anos na própria China e em outros países.
![]()
COMO PROCEDER À CONSULTA
Escolha três moedas do mesmo tamanho, as quais deverão ser conservadas com você ou em meio aos seus pertences, para assim ficarem imantadas com toda a sua energia.
Convencione que a face CARA corresponde ao valor 3 e a COROA ao valor 2.
As moedas devem ser jogadas seis vezes, uma para cada linha. (então teremos seis jogadas, para que possamos obter as seis linhas)
O resultado da primeira jogada determinará a linha inferior, que é considerada a primeira; a segunda jogada determinará a segunda linha, e assim por diante, até compor o hexagrama.
Com a pergunta bem formulada em mente, papel e lápis à mão para anotar os resultados, há quatro etapas a serem percorridas até se chegar ao hexagrama:
- Coloque as moedas em uma das mãos, sacuda-as por um momento e solte-as.
- Some os valores das moedas e desenhe a linha da seguinte maneira: os números pares correspondem às linhas interrompidas ( __ __) e os números ímpares às linhas inteiras (______).
- O lançamento é feito seis vezes e cada linha deve ser disposta debaixo para cima. (sempre DEBAIXO PARA CIMA)
- Divida o hexagrama obtido em dois, de modo a ficar com um trigramas inferior e outro superior. (Analise a tabela anexa e, descendo pela coluna dos trigramas superiores e descolando-se pela coluna dos trigramas inferiores, na horizontal, localize o numero do seu hexagrama.). Encontrou a resposta do oráculo.
![]()

![]()
PREFÁCIO
DE YUNG AO LIVRO DE RICHARD WILHELM
Não sendo um sinólogo, meu prefácio ao Livro das Mutações
terá que ser um testemunho da experiência pessoal com esse grande
e único livro. Ao mesmo tempo terei a grata oportunidade de homenagear
também a memória de meu falecido amigo Richard Wilhelm. Ele próprio
tinha profunda consciência da importância cultural de sua tradução
do I Ching, versão sem paralelo no mundo Ocidental.
Se o significado do Livro das Mutações fosse de fácil apreensão,
a obra não precisaria de um prefácio. Mas sem dúvida esse
não é o caso, já que há tantos pontos enigmáticos
em seu conteúdo que os estudiosos ocidentais tenderam a considerá-lo
como um conjunto de "fórmulas mágicas" que, ou seriam
abstrusas demais para serem inteligíveis, ou careceriam de todo valor.
A tradução de Legge do I Ching, até agora a única
versão disponível em inglês, pouco contribuiu para tornar
a obra mais acessível à mente ocidental.2 Wilhelm, entretanto,
fez o esforço possível para abrir o caminho à compreensão
do simbolismo do texto. Ele tinha condições de fazê-lo,
pois a filosofia e o uso do I Ching foram-lhe ensinados pelo venerável
sábio Lao-Nai-hsüan; além disso, durante um período
de vários anos havia posto em prática a peculiar técnica
do oráculo. A apreensão do sentido vivo do texto dá à
sua versão do I Ching uma profundidade de perspectiva que um conhecimento
exclusivamente acadêmico da filosofia chinesa nunca poderia proporcionar.
Tenho uma enorme dívida para com Wilhelm pelo esclarecimento que trouxe
à complicada problemática do I Ching e também pelas intuições
relativas à sua aplicação prática. Por mais de 30
anos, interessei-me por essa técnica oracular, ou método de explorar
o inconsciente, que pareceu-me de excepcional significado. Já estava
bastante familiarizado com o I Ching quando conheci Wilhelm no começo
da década de 20; ele confirmou o que eu já sabia, além
de ensinar-me muito mais.
Desconheço a língua chinesa e nunca estive na China. Posso afirmar
ao meu leitor que é muito difícil encontrar o correto modo de
acesso a esse monumento do pensamento chinês tão distante de nossa
forma de pensar. De modo a poder compreender de que trata esse livro, é
indispensável deixar de lado certos preconceitos da mente ocidental.
É curioso que um povo tão dotado e inteligente como o chinês
nunca tenha desenvolvido o que chamamos ciência. Nossa ciência,
entretanto, é baseada no princípio da causalidade, o qual é
considerado uma verdade axiomática. Mas uma grande mudança está
ocorrendo em nosso ponto de vista. O que a "Crítica da Razão
Pura" de Kant não conseguiu, está sendo realizado pela física
moderna. Os axiomas da causalidade estão sendo abalados em seus fundamentos:
sabemos agora que o que denominamos leis naturais são meramente verdades
estatísticas que supõem, necessariamente, exceções.
Ainda não nos apercebemos que necessitamos do laboratório com
suas decisivas limitações para demonstrar a validade invariável
das leis naturais. Se deixarmos a natureza agir, veremos um quadro muito diferente:
o acaso vai interferir total ou parcialmente em todo o processo, tanto assim
que, em circunstâncias naturais, uma seqüência de fatos que
esteja em absoluta concordância com leis específicas constitui
quase uma exceção.
A mente chinesa, como a vejo trabalhando no I Ching, parece preocupar-se exclusivamente
com o aspecto casual dos acontecimentos. O que chamamos de coincidência
parece ser o interesse primordial desta mente peculiar e o que cultuamos como
causalidade passa quase desapercebido. Devemos admitir que há muito a
dizer a respeito da imensa importância do acaso. Uma quantidade incalculável
do esforço do homem visa a combater e limitar os incômodos ou perigos
representados pelo acaso. Considerações teóricas de causa
e efeito freqüentemente parecem fracas e pobres em comparação
com os resultados práticos do acaso. É correto dizer que o cristal
de quartzo é um prisma hexagonal. A afirmação é
verdadeira quando se considera um cristal ideal; entretanto, na natureza não
se encontram dois cristais exatamente iguais, ainda que todos sejam inequivocadamente
hexagonais. A forma concreta, no entanto, parece interessar mais ao sábio
chinês que a forma ideal. O emaranhado de leis naturais que constitui
a realidade empírica é mais significativo para ele que uma explicação
causal de fatos que, além disso, em geral devem ser separados uns dos
outros para que possam ser adequadamente tratados.
A maneira como o I Ching tende a encarar a realidade parece não favorecer
nossa maneira causal de proceder. O momento concretamente observado apresenta-se
à antiga visão chinesa, mais como um acontecimento fortuito que
o resultado claramente definido de um concordante processo causal em cadeia.
A questão que interessa parece ser a configuração formada
por eventos casuais no momento da observação e de modo nenhum
as hipotéticas razões que aparentemente justificam a coincidência.
Enquanto a mente ocidental cuidadosamente examina, pesa, seleciona, classifica
e isola, a visão chinesa do momento inclui tudo até o menor e
mais absurdo detalhe, pois tudo compõe o momento observado.
Assim ocorre quando são jogadas as três moedas, ou quando se contam
as 49 varetas; esses detalhes casuais entram no quadro do momento de observação
e fazem parte dele - uma parte que para nós é insignificante,
porém para a mente chinesa é de suma importância. Seria
para nós uma afirmação banal e quase sem sentido (pelo
menos à primeira vista) dizer que tudo que acontece num determinado momento
tem inevitavelmente a qualidade peculiar àquele momento. Esse não
é um argumento abstrato mas, ao contrário, muito prático.
Alguns especialistas são capazes de determinar só pelo aspecto,
gosto e comportamento de um vinho a sua procedência e o ano de sua origem.
Existem conhecedores de antigüidades que podem afirmar com extraordinária
precisão a data, o lugar de origem e o autor de um "objet d´art''
ou de um móvel, simplesmente olhando-os. Existem astrólogos que
podem dizer a uma pessoa, sem nenhum conhecimento prévio, a data de seu
nascimento, qual era a posição do sol e da lua, e qual o signo
que se encontrava sobre o horizonte no momento de seu nascimento. Diante de
tais fatos é preciso admitir que os momentos podem deixar marcas duradouras.
Em outras palavras, quem quer que tenha inventado o I Ching estava convencido
de que o hexagrama obtido num determinado momento coincidia com esse momento
tanto em qualidade quanto em tempo. Para ele o hexagrama era o intérprete
do momento no qual era tirado - mais que as horas do relógio ou as divisões
de um calendário -, uma vez que o hexagrama era compreendido como sendo
o indicador da situação essencial que prevalecia no momento de
sua origem.
Essa suposição envolve um certo princípio curioso que denominei
sincronicidade,3 conceito este que formula um ponto de vista diametralmente
oposto ao da causalidade. A causalidade enquanto uma verdade meramente estatística
não absoluta é uma espécie de hipótese de trabalho
sobre como os acontecimentos surgem uns a partir dos outros, enquanto que, para
a sincronicidade, a coincidência dos acontecimentos, no espaço
e no tempo, significa algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência
de eventos objetivos entre si, assim como dos estados subjetivos (psíquicos)
do observador ou observadores.
O pensamento tradicional chinês apreende o cosmos de um modo semelhante
ao do físico moderno, que não pode negar que seu modelo do mundo
é uma estrutura decididamente psicofísica. O fato microfísico
inclui o observador tanto quanto a realidade subjacente ao I Ching abrange a
subjetividade, isto é, as condições psíquicas dentro
da totalidade da situação momentânea. Assim como a causalidade
descreve a seqüência dos acontecimentos, a sincronicidade, para a
mente chinesa, lida com a coincidência de eventos.
O ponto de vista causal nos relata uma dramática história sobre
como D chegou à existência: originou-se de C que existia antes
de D, e C, por sua vez, teve um pai, B, etc. Por outro lado, a visão
da sincronicidade tenta produzir uma representação igualmente
significativa da coincidência. Como é que A, B, C, D, etc. aparecem
todos no mesmo momento e no mesmo lugar? Isso acontece, em primeiro lugar, porque
os eventos físicos A e B são da mesma qualidade dos eventos psíquicos
C e D, e ainda porque todos são intérpretes de uma única
e mesma situação momentânea. Assume-se que a situação
representa um quadro legível ou compreensível.
Os 64 hexagramas do I Ching são o instrumento pelo qual se pode determinar
o significado de 64 situações diferentes, porém típicas.
Essas interpretações são equivalentes a explicações
causais. A conexão causal é estatisticamente necessária
e pode, portanto, ser submetida à experiência. Uma vez que as situações
são únicas e não podem ser repetidas, não parece
ser possível, em condições normais,4 realizar experiências
com a sincronicidade. No I Ching, o único critério de validade
da sincronicidade é a opinião do observador de que o texto do
hexagrama eqüivale a uma interpretação fiel de sua condição
psíquica. Supõe-se que a queda das moedas ou o resultado da divisão
do conjunto de varetas de caule de milefólio é o que necessariamente
deve ser uma "situação" dada, já que qualquer
coisa que aconteça naquele momento pertence a ele como parte indispensável
do quadro. Se um punhado de fósforos é jogado no chão,
eles formam o padrão característico daquele momento. Porém,
uma verdade tão óbvia como essa só revela seu caráter
significativo se for possível ler o padrão e verificar sua interpretação,
em parte pelo conhecimento, do observador, da situação objetiva
e da subjetiva e, em parte, pelo caráter dos fatos subsequentes. Obviamente
esse não é um procedimento que atraia uma mente crítica,
acostumada à verificação experimental de fatos ou à
evidência factual. Mas para alguém que goste de olhar o mundo segundo
a perspectiva da antiga China, o I Ching pode exercer alguma atração.
Meu argumento, tal como foi exposto acima, jamais, é claro, ocorreu à
mente chinesa. Ao contrário, de acordo com a antiga tradição,
são "agentes espirituais", atuando de uma forma misteriosa,
que fazem com que as varetas de caule de milefólio dêem uma resposta
significativa.5 Esses poderes constituem como que a alma viva do livro, que
é, portanto, uma espécie de ser vivo, e a tradição
supõe que se podem fazer perguntas ao I Ching e esperar receber respostas
inteligentes. Ocorreu-me, portanto, que talvez interesse ao leitor não
iniciado ver o I Ching operando. Com esse propósito realizei uma experiência
rigorosamente de acordo com a concepção chinesa: personifiquei,
de certo modo, o livro, perguntando seu julgamento sobre sua situação
atual, isto é, sobre minha intenção de apresentá-lo
à mente ocidental. Ainda que esse procedimento se enquadre perfeitamente
nas premissas da filosofia Taoísta, para nós ele parece demasiado
extravagante. Entretanto, nem mesmo o insólito dos delírios doentios
ou superstições primitivas jamais me chocaram. Sempre tentei permanecer
livre de preconceitos e curioso - rerum novarum cupidus. Por que não
ousar um diálogo com um antigo livro que se propõe como algo vivo?
Não pode haver mal nenhum nisso, e o leitor poderá observar um
procedimento psicológico que tem sido posto em prática vezes e
mais vezes através dos milênios da civilização chinesa,
representando para homens como Confúcio ou Lao-tse tanto a expressão
suprema da autoridade espiritual quanto um enigma filosófico. Utilizei
o método de moedas e a resposta obtida foi o hexagrama 50 - Ting, O CALDEIRÃO.
De acordo com a maneira como foi formulada minha pergunta, deve-se entender
o texto do hexagrama como se o próprio I Ching fosse a pessoa que fala.
Assim, ele descreve a si próprio como um caldeirão, isto é,
como um recipiente de ritual contendo comida preparada. Deve-se entender comida,
aqui, como alimento espiritual. Wilhelm diz a respeito:
"O Ting, enquanto um utensílio pertencente a uma civilização
refinada, sugere o cuidado e a alimentação dos homens capazes,
o que resulta em benefício da nação... Aqui a cultura atinge
sua culminância na religião. O Ting serve para a oferenda de sacrifícios
a Deus. Os mais elevados valores terrenos devem ser oferecidos em sacrifício
a Deus... A suprema revelação de Deus encontra-se nos profetas
e nos santos. Venerá-los é, na verdade, venerar a Deus. Os desígnios
de Deus, manifestados através deles, devem ser aceitos com humildade".
Seguindo nossa hipótese, devemos concluir que aqui o I Ching está
testemunhando a respeito de si mesmo.
Quando alguma das linhas de um hexagrama dado tem o valor de seis ou nove, significa
que são especialmente enfatizadas, e que, por isso, são importantes
na interpretação.6 Em meu hexagrama os "agentes espirituais"
enfatizaram com um nove as linhas na segunda e terceira posições.
Diz o texto:
Nove na segunda posição significa:
Há alimento no Ting.
Meus companheiros têm inveja,
mas nada podem contra mim.
Boa fortuna.
Assim, o I Ching diz de si mesmo: "Eu contenho alimento (espiritual)".
Como a participação em algo grande sempre desperta inveja, o coro
dos invejosos7 é parte da cena. Os invejosos querem despojar o I Ching
daquilo que ele possui de grandioso, isto é, procuram roubar ou destruir
o seu significado. Mas essa hostilidade é em vão. Sua riqueza
de significado está assegurada, isto é, o I Ching está
seguro de suas positivas conquistas, as quais ninguém lhe pode tirar.
O texto continua:
Nove na terceira posição significa:
A alça do Ting está alterada.
Ele é impedido em suas atitudes.
A gordura do faisão não é comida.
Quando a chuva cair, o remorso desaparecerá.
A boa fortuna virá ao final.
A alça (em alemão Griff) é a parte pela qual o Ting pode
ser segurado (gegriffen). Portanto, significa o conceito8 (Begriff) que se tem
do I Ching (o Ting). No decorrer do tempo, esse conceito aparentemente mudou,
de modo que hoje já não podemos apreender (begreifen) o I Ching.
Assim, "ele é impedido em suas atitudes". Já não
somos mais amparados pelo sábio conselho e pela profunda visão
intuitiva do oráculo; por isso, não mais encontramos nosso caminho
através das complexidades do destino e da escuridão de nossa própria
natureza. Já não mais se come a gordura do faisão, isto
é, a melhor e mais rica parte de um bom prato. Mas quando, finalmente,
a terra sequiosa novamente receber a chuva, isto é, quando esse estado
de carência for superado, o "remorso", isto é, a tristeza
pela perda da sabedoria tiver cessado, virá a tão esperada oportunidade.
Wilhelm comenta: "Isso descreve alguém que, em meio a uma cultura
muito desenvolvida, encontra-se numa posição em que não
é notado nem reconhecido. Isso é um grande obstáculo à
sua atuação". O I Ching parece estar lamentando que suas
excelentes qualidades não sejam reconhecidas e portanto permanecem inexploradas.
Conforta-se com a esperança de recuperar, em breve, o reconhecimento.
A resposta dada, nessas duas linhas de destaque, à pergunta que formulei
ao I Ching não requer nenhuma sutileza especial de interpretação,
nenhum artifício, nenhum conhecimento incomum. Qualquer pessoa com um
pouco de bom senso pode compreender o significado da resposta; é a resposta
de alguém que tem uma boa opinião sobre si próprio, mas
cujo valor não é pela maioria reconhecido, nem sequer amplamente
conhecido. Quem responde tem uma noção interessante sobre si mesmo:
se vê como um recipiente no qual as oferendas ao sacrifício são
trazidas aos deuses, a comida do ritual destinada à sua alimentação.
Concebe a si próprio como um utensílio de culto destinado a prover
o alimento espiritual para os elementos ou forças inconscientes ("agentes
espirituais") que foram projetados como deuses - em outras palavras, para
dar a essas forças a atenção que elas necessitam para desempenhar
seu papel na vida do indivíduo. Na realidade, esse é o significado
original da palavra "religio" - uma cuidadosa observação
e consideração (de ''relegere")9 do numinoso.
O método do I Ching leva realmente em consideração a oculta
qualidade individual existente nas coisas e nos homens e também no nosso
próprio inconsciente. Interroguei o I Ching como fazemos com alguém
a quem estamos prestes a apresentar a nossos amigos: perguntamos se isso seria
ou não agradável a ele. O I Ching, como resposta, fala de seu
significado religioso, do fato de ser desconhecido e mal interpretado na atualidade
e sua esperança de voltar a ocupar um lugar de honra - essa última
parte obviamente como uma direta menção ao meu prefácio10
ainda não redigido e sobretudo à tradução para o
inglês. Essa parece ser uma reação perfeitamente compreensível,
tal como se poderia esperar de uma pessoa numa situação similar.
Mas como surgiu essa reação? Porque eu joguei três pequenas
moedas ao
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
Concordo com o pensamento ocidental que seriam possíveis inúmeras
respostas à minha pergunta e certamente não posso afirmar que
outra resposta não terá sido igualmente significativa. Entretanto,
a resposta obtida foi a primeira e única; nada sabemos sobre outras possíveis
respostas. Esta me agradou e satisfez. Fazer a mesma pergunta uma segunda vez
teria sido falta de tato, por isso não a fiz: "o mestre só
fala uma vez". O opressivo enfoque pedagógico que pretende enquadrar
os fenômenos irracionais dentro de um padrão racional preconcebido
é anátema para mim. Na realidade, coisas assim como essa resposta
devem permanecer tal como eram em sua primeira aparição, pois
só então sabemos o que faz a natureza quando deixada em si mesma
sem ser perturbada pela intromissão do homem. Não se deve recorrer
a cadáveres para estudar a vida. Além disso, uma repetição
da experiência é impossível pelo simples motivo de que a
situação original não pode ser reconstruída. Portanto,
em cada caso há apenas uma primeira e única resposta.
Voltemos ao próprio hexagrama. Não há nada estranho no
fato de que todo o Ting, O CALDEIRÃO, amplie os temas propostos pelas
duas linhas ressaltadas.11 A primeira linha do hexagrama diz:
Um Ting com os pés para o alto, emborcado.
É favorável remover o conteúdo estagnado.
Uma concubina é aceita em virtude de seu filho.
Nenhuma culpa.
Um caldeirão que se encontra de cabeça para baixo está
fora de uso. Logo, o I Ching é como um caldeirão que não
está sendo usado. Virá-lo ao contrário serve para eliminar
o conteúdo estagnado, como diz a linha. Assim como um homem toma uma
concubina quando sua esposa não tem filho, recorre-se ao I Ching quando
não se encontra outra saída. Apesar do status quase legal da concubina
na China, na realidade ele não é mais que um recurso de certa
forma secundário; assim também o processo mágico do oráculo
é um recurso que pode ser usado com um objetivo mais elevado. Não
há culpa, embora se trate de um recurso excepcional. A segunda e terceira
linhas já foram discutidas. A quarta linha diz:
O Ting com as pernas quebradas.
A refeição do príncipe é derramada,
e nódoas recaem sobre sua pessoa.
Infortúnio.
Aqui o Ting foi posto em uso, mas evidentemente de uma forma bastante canhestra,
isto é, abusou-se do oráculo ou o interpretaram erroneamente.
Deste modo, perdeu-se o alimento divino e se expôs à vergonha.
Legge traduz da seguinte forma: "o sujeito em questão irá
coroar de vergonha". O abuso de um utensílio de culto tal como o
Ting (isto é, o I Ching) é uma profanação grosseira.
Evidentemente, o I Ching está insistindo aqui em sua dignidade como um
objeto de ritual e protestando contra sua utilização profana.
A quinta linha diz:
O Ting tem alças amarelas e argolas de ouro.
A perseverança é favorável.
O I Ching parece ter encontrado uma nova e correta (amarela) compreensão,
isto é, um novo conceito (Begriff), através do qual pode ser apreendido.
Esse conceito é valioso (de ouro). Há realmente uma nova edição
em inglês, que torna o livro mais acessível que antes ao mundo
ocidental.
A sexta linha diz:
O Ting tem argolas de jade.
Grande boa fortuna!
Nada que não seja favorável.
O jade se distingue pela sua beleza e suave brilho. Se as alças são
de jade, todo o recipiente será realçado em sua beleza, honra
e valor.
Aqui o I Ching expressa-se não só como estando muito satisfeito,
mas também bastante otimista. Pode-se apenas esperar futuros acontecimentos
e, até lá, contentar-se com a agradável conclusão
de que o I Ching aprova a nova edição.
Demonstrei nesse exemplo de forma tão objetiva quanto me foi possível
como o oráculo atua num caso dado. Evidentemente, o processo varia um
pouco segundo a forma como a pergunta é formulada. Se, por exemplo, uma
pessoa encontra-se numa situação confusa, ela própria pode
aparecer no oráculo como aquela que fala, ou se a pergunta diz respeito
a um relacionamento com outra pessoa, essa pessoa pode aparecer como aquela
que fala. Entretanto, a identidade de quem fala não depende inteiramente
da maneira pela qual a pergunta foi formulada, da mesma forma que nossas relações
com nossos semelhantes nem sempre são determinadas por estes últimos.
Freqüentemente nossas relações dependem quase que exclusivamente
de nossas próprias atitudes, mesmo que não estejamos conscientes
desse fato. Assim sendo, se um indivíduo não tem consciência
do seu papel num relacionamento, poderá haver uma surpresa à sua
espera, ao contrário das expectativas, ele próprio pode aparecer
como o agente principal, como às vezes é indicado, de forma inequívoca,
pelo texto. Pode ocorrer também que tomemos uma situação
demasiadamente a sério e a consideremos de extrema importância,
enquanto que a resposta que obtemos ao consultar o I Ching chama a atenção
para algum outro aspecto inesperado, implícito na pergunta.
Tais ocorrências podem, ao início, levar-nos a pensar que o oráculo
é ardiloso. Diz-se que Confúcio recebeu uma só resposta
imprópria, isto é, o hexagrama 22, Graciosidade - um hexagrama
totalmente estético. Isso lembra o conselho dado a Sócrates por
seu "daimon": "Você deveria fazer mais música"
- e a partir de então Sócrates começou a tocar flauta.
Confúcio e Sócrates concorrem ao primeiro lugar no que se refere
a uma perspectiva racional e uma atitude pedagógica diante da vida; mas
é pouco provável que um deles tenha se preocupado em "embelezar
a barba em seu queixo", como aconselha a segunda linha desse hexagrama.
Infelizmente a razão e a pedagogia, com frequência, carecem de
encanto e graça, e assim, afinal, o oráculo talvez não
se tenha enganado.
Voltemos uma vez mais ao nosso hexagrama. Apesar do I Ching não só
parecer estar satisfeito com sua nova edição, como até
demonstra um enfático otimismo, isso ainda não prediz o efeito
que terá no público que se pretende atingir.
Já que temos em nosso hexagrama duas linhas yang enfatizadas pelo valor
numérico nove, estamos em condições de averiguar que tipo
de prognóstico o I Ching formula para si próprio. Segundo a concepção
da antigüidade, as linhas indicadas por um seis ou um nove possuem uma
tensão interna tão grande que faz com que se transformem em seus
opostos, isto é, yang em yin e vice-versa. Através dessa transformação,
nós obtemos no presente caso o hexagrama 35, Chin, PROGRESSO.
O tema desse hexagrama é relativo a alguém que encontra toda sorte
de vicissitudes do destino em sua ascensão, e o texto descreve como ele
deve se comportar. O I Ching está nessa mesma situação:
eleva-se como o sol e se dá a conhecer, mas é repudiado e não
inspira confiança - ele está "progredindo porém em
tristeza". Entretanto, "obtém-se grande felicidade da parte
de seu ancestral". A psicologia nos pode ajudar a elucidar essa passagem
obscura. Em sonhos e nos contos de fadas, a avó, ou ancestral, freqüentemente
representa o inconsciente, pois esse último, no homem, contém
o componente feminino da psique. Se o I Ching não é aceito pelo
consciente, pelo menos o inconsciente, em parte, o aceita e o I Ching está
mais ligado ao inconsciente que à atitude racional da consciência.
Já que o inconsciente é freqüentemente representado em sonhos
por uma figura feminina, poderia ser essa, no caso, a explicação.
A figura feminina pode ser interpretada como a tradutora, que deu ao livro cuidados
maternais, e o I Ching poderá facilmente considerar isso como uma "grande
felicidade". O I Ching prevê a compreensão geral, mas teme
ser mal usado. "Progresso como o de um roedor." Mas está atento
à advertência, "Não se deixe levar por ganho ou perda".
Ele permanece livre de "partidarismos" e não se impõe
a ninguém.
O I Ching, portanto, encara seu futuro no mercado editorial americano tranqüilamente,
exprimindo-se aqui como o faria qualquer pessoa sensata a respeito do destino
de uma obra tão controvertida. Essa profecia é tão razoável
e cheia de bom senso, que seria difícil pensar-se em resposta mais apropriada.
Tudo isso ocorreu antes de eu ter escrito os parágrafos anteriores. Quando
cheguei a esse ponto, quis conhecer a atitude do I Ching diante da nova situação.
As circunstâncias tinham sido alteradas pelo que havia escrito, uma vez
que eu mesmo tinha entrado em cena e, portanto, esperava ouvir algo referente
à minha própria ação. Devo confessar que enquanto
escrevia este prefácio não me sentia muito feliz pois, como alguém
com senso de responsabilidade em relação à ciência,
não tenho o hábito de afirmar algo que não possa provar,
ou pelo menos, apresentar de maneira aceitável à razão.
É realmente uma tarefa duvidosa tentar apresentar a um público
moderno, crítico, um conjunto de arcaicos "encantamentos mágicos",
com a intenção de torná-los mais ou menos aceitáveis.
Empreendi essa tarefa porque julgo que há mais, no antigo modo de pensar
chinês, do que parece à primeira vista. Porém, é
para mim constrangedor ter que apelar à boa vontade e à imaginação
do leitor, já que tenho que introduzi-lo na obscuridade de um antiquíssimo
ritual mágico. Infelizmente conheço muito bem os argumentos que
podem levantar contra ele. Não temos sequer certeza de que o barco que
nos há de levar através de mares desconhecidos não tenha
uma falha em algum lugar. Não poderá estar corrompido o velho
texto? Será precisa a tradução de Wilhelm? Não estaremos
enganados em nossas explicações?
O I Ching a todo instante insiste no autoconhecimento. O método pelo
qual isso deve ser alcançado está aberto a todo tipo de aplicações
errôneas e por isso não convém aos frívolos e imaturos
nem aos intelectuais e racionalistas. Só é apropriado àqueles
afeitos ao pensar, à reflexão e aos quais apraz meditar sobre
o que fazem e o que lhes ocorre - predileção essa que não
deve ser confundida com o mórbido cismar do hipocondríaco. Como
indiquei acima, não tenho resposta para a infinidade de problemas que
surgem quando procuramos harmonizar o oráculo do I Ching com nossos cânones
científicos aceitos. Mas é desnecessário dizer que nada
"oculto" é passível de ser deduzido. Minha posição
nessas questões é pragmática e as grandes disciplinas que
me ensinaram a utilidade prática desse ponto de vista são a psicoterapia
e a psicologia médica. Provavelmente em nenhum outro campo temos que
levar em conta tantas incógnitas, e em nenhuma outra área temos
que ter por hábito adotar métodos que funcionam, ainda que, por
longos períodos, não saibamos por que eles funcionam. Curas inesperadas
podem surgir de métodos presumivelmente confiáveis. Na exploração
do inconsciente deparamos com coisas muito estranhas, das quais um racionalista
se afastaria com horror, afirmando, depois, que nada viu. A plenitude irracional
da vida ensinou-me a nunca descartar nada, mesmo quando vão contra todas
as nossas teorias (que mesmo na melhor das hipóteses têm vida tão
curta) ou quando não admitem nenhuma explicação imediata.
Naturalmente isso é inquietante e não sabemos, com certeza, se
a indicação da bússola está correta ou não,
porém a segurança, a certeza e a paz não conduzem a descobertas.
O mesmo ocorre com esse método divinatório chinês. O método
aponta claramente para o autoconhecimento, ainda que em todas as épocas
tenha sido usado num sentido supersticioso.
É claro que estou de todo convencido do valor do autoconhecimento, mas
valerá a pena recomendar semelhante introspecção, quando
os mais sábios homens em todos os tempos pregaram essa necessidade sem
êxito? Este livro representa, e isto é óbvio até
mesmo para os mais preconceituosos, uma longa exortação a uma
cuidadosa análise de nosso próprio caráter, a atitudes
e motivações. Essa posição me atrai e levou-me a
escrever o prefácio. Só uma vez antes havia me pronunciado acerca
do problema do I Ching - foi durante um discurso em memória de Richard
Wilhelm. Afora esta ocasião, mantive um discreto silêncio. Não
é tarefa fácil descobrir o caminho para penetrar numa mentalidade
distante e misteriosa como a que perpassa o I Ching. Não se pode menosprezar
tão facilmente grandes pensadores como Confúcio e Lao-tse, quando
se é capaz de avaliar a qualidade dos pensamentos que eles representam;
tampouco se pode ignorar o fato de que o I Ching era sua principal fonte de
inspiração. Sei que anteriormente não teria ousado expressar-me
de forma tão explícita sobre assunto tão incerto. Posso
correr esse risco porque estou agora em minha oitava década e as volúveis
opiniões dos homens já não mais me impressionam; os pensamentos
dos velhos mestres são mais valiosos para mim que os preconceitos filosóficos
da mente ocidental.
Não gosto de incomodar meu leitor com essas considerações
pessoais, mas como já indiquei, nossa própria personalidade está,
com frequência, envolvida na resposta do oráculo. Na verdade, ao
formular minha pergunta eu como que, de fato, convidava o oráculo a comentar
diretamente minha ação. A resposta foi o hexagrama 29 - K´an,
O ABISMAL. Ênfase especial foi dada à linha na terceira posição,
pelo fato de ela ser designada por um seis. Essa linha diz:
Para adiante e para trás.
Abismo sobre abismo.
Num prigo como esse, detenha-se ao início e espere.
Senão você cairá num buraco no abismo.
Não atue assim.
Anteriormente eu teria aceito incondicionalmente o conselho "Não
atue assim" e teria recusado dar minha opinião sobre o I Ching,
pelo simples fato de não ter nenhuma. Mas agora, o conselho pode servir
como um exemplo do modo como funciona o I Ching. É um fato, se começamos
a pensar nisso, que os problemas do I Ching representam "abismo sobre abismo",
e inevitavelmente deve-se "parar primeiro e esperar" em meio aos perigos
de uma especulação demasiado vaga e desprovida de senso crítico;
de outro modo, realmente nos perderíamos na escuridão. Pode haver
uma posição intelectualmente mais incômoda que a de flutuar
na névoa de possibilidades não comprovadas, não sabendo
se o que estamos vendo é verdade ou ilusão? Essa é a atmosfera
quase onírica do I Ching, e nela não encontramos nada em que possamos
confiar, exceto o nosso próprio e tão falível julgamento
subjetivo. Não posso deixar de reconhecer que essa linha representa muito
apropriadamente o sentimento com o qual redigi as páginas precedentes.
As reconfortantes palavras iniciais desse hexagrama são igualmente apropriadas
- "Se você é sincero, terá o sucesso em seu coração"
- porque indicam que o decisivo aqui não é o perigo exterior,
mas a condição subjetiva, isto é, se acreditamos sermos
"sinceros" ou não.
O hexagrama compara a ação dinâmica nessa situação
ao comportamento da água corrente, que não teme nenhum lugar perigoso
e mergulha sobre rochedos e preenche os fossos que encontra em seu curso (K´an
também significa água). Essa é a maneira como o "homem
superior" age e "exerce o ofício de ensinar".
K´an é, sem dúvida, um dos hexagramas menos agradáveis.
Descreve uma situação na qual alguém parece encontrar-se
em sério perigo de ser apanhado em toda sorte de armadilhas. Do mesmo
modo que, ao interpretar um sonho, é preciso seguir o texto do sonho
com a máxima exatidão, assim, ao consultar o oráculo, é
preciso ter em mente a formulação da pergunta, pois essa impõe
um limite definido à interpretação da resposta. A primeira
linha do hexagrama mostra a presença do perigo: "No abismo se cai
num fosso". A segunda linha faz o mesmo e acrescenta o conselho: "Deve-se
procurar alcançar apenas pequenas coisas". Eu aparentemente me antecipara
a esse conselho, limitando-me, no prefácio, a uma demonstração
de como o I Ching funciona na mente chinesa e renunciando ao projeto mais ambicioso,
de escrever um comentário psicológico sobre todo o livro.
A quarta linha diz:
Uma jarra de vinho, uma tigela de arroz,
louça de barro, simplesmente entregues pela janela.
Isso por certo não implica em culpa.
Wilhelm faz o seguinte comentário a respeito:
"Em condições normais, o funcionário que aspirava
a um cargo devia trazer certas oferendas e recomendações antes
de ser nomeado. Tudo aqui está simplificado ao máximo. As oferendas
são modestas, não há ninguém para recomendá-lo
e ele tem de fazer sua própria apresentação. No entanto,
não deve se envergonhar por isso, se existir apenas a sincera intenção
de prestar uma ajuda mútua no perigo".
É como se o livro fosse, num certo sentido, o sujeito dessa linha.
A quinta linha dá continuidade ao tema da limitação. Observando-se
a natureza da água, verifica-se que ela preenche um fosso somente até
a borda e prossegue, então, fluindo. Não fica contida ali.
O abismo não está cheio a ponto de transbordar,
está cheio apenas até a borda.
Mas, se tentados pelo perigo e em virtude apenas da insegurança, insistíssemos
tentando forçar uma convicção através de um esforço
excepcional, como no caso de elaborados comentários ou coisas semelhantes,
atolaríamos nas dificuldades que a linha ao alto descreve com grande
precisão como condições que tolhem e aprisionam. Na verdade,
a última linha muitas vezes mostra as conseqüências decorrentes
de não se levar a sério o significado do hexagrama. Em nosso hexagrama
temos um seis na terceira posição. Essa linha yin de crescente
tensão transforma-se em uma linha yang e assim gera um novo hexagrama,
mostrando uma nova possibilidade ou tendência. Temos agora o hexagrama
48 - Ching, O POÇO. O fosso cheio de água já não
significa mais perigo e sim algo benéfico, um poço.
Assim o homem superior incentiva o povo em seu trabalho, exortando as pessoas
a se ajudarem mutuamente.
A imagem de pessoas ajudando-se uma às outras pareceria referir à
reconstrução do poço, pois este está quebrado e
cheio de lama. Nem mesmo os animais bebem nele. Há peixes vivendo nele
e pode-se apanhá-los, mas o povo não é utilizado para beber,
isto é, para as necessidades humanas. Essa descrição lembra
o Ting - O CALDEIRÃO - de cabeça para baixo e fora de uso, que
precisa receber uma nova alça. Além disso, esse poço, como
o Ting, está limpo, mas ninguém bebe dele.
Este é o pesar de meu coração,
pois se poderia usufruir dele.
O perigoso fosso cheio de água ou o abismo referiam-se ao I Ching e o
poço também, porém esse último tem um sentido positivo:
contém as águas da vida. Deveria ser posto outra vez em uso. Mas
não se possui nenhuma noção (Begriff) sobre ele, nem utensílio
algum para extrair a água; o cântaro está quebrado e vaza.
O Ting precisa de novas alças pelas quais se possa segurá-lo,
e o poço também deve receber um revestimento, pois contém
"uma fonte límpida e fresca, da qual se pode beber". Pode-se
tirar água dele porque é "digno de confiança".
Está claro neste presságio que o sujeito que fala é outra
vez o I Ching, representando-se como uma fonte de água da vida. O hexagrama
precedente descreve com detalhes o perigo que ameaça a pessoa que acidentalmente
cai num fosso dentro do abismo. Ela deve procurar a saída, para poder
descobrir que se trata de um velho poço em ruínas, enterrado na
lama, mas passível de ser restituído ao uso novamente.
Submeti duas perguntas ao método do acaso representado pelo oráculo
das moedas, a segunda pergunta tendo sido formulada depois de eu ter escrito
minha análise da resposta à primeira. A primeira pergunta como
que se dirigia ao I Ching: o que tinha ele a dizer sobre minha intenção
de escrever um prefácio? A segunda pergunta referia-se à minha
própria ação, ou melhor, à situação
na qual eu era o sujeito agente que discutira o primeiro hexagrama. À
primeira pergunta o I Ching respondeu comparando-se a um caldeirão, um
recipiente de ritual que necessitava de renovação e que estava
encontrando apenas uma questionável aprovação da parte
do público. A resposta à segunda pergunta dizia que eu me encontrava
numa dificuldade pois o I Ching representava um profundo e perigoso fosso com
água no qual poder-se-ia facilmente atolar. No entanto, o fosso com água
revelou ser um velho poço que precisava apenas ser restaurado para tornar-se
útil novamente.
Esses quatro hexagramas são, em seus elementos centrais, coerentes entre
si quanto ao tema (recipiente, fosso, poço), e no que se refere ao conteúdo
intelectual parecem ser significativos. Se um ser humano desse tais respostas,
eu, como psiquiatra, teria de considerá-lo mentalmente sadio, pelo menos,
com base no material apresentado. De fato, eu não teria sido capaz de
descobrir nada de delirante, de oligofrênico ou esquizofrênico nas
quatro respostas. Diante da extrema antigüidade do I Ching e de sua origem
chinesa, não posso considerar anormal sua linguagem arcaica, simbólica
e floreada. Ao contrário, eu teria felicitado essa hipotética
pessoa pela amplitude de sua intuição do estado de dúvida
que não chegara a expressar. Por outro lado, qualquer pessoa inteligente
e versátil pode torcer tudo isso e mostrar como eu projetei os meus conteúdos
subjetivos no simbolismo dos hexagramas. Semelhante crítica, ainda que
catastrófica do ponto de vista do racionalismo ocidental, não
afeta a função do I Ching. Ao contrário, o sábio
chinês me diria sorrindo: "Não percebe quão útil
é o I Ching para fazer com que você projete num simbolismo abstruso
seus pensamentos, até então não percebidos? Você
poderia ter escrito seu prefácio sem jamais perceber a avalanche de mal-entendidos
que o mesmo poderia desencadear".
O ponto de vista chinês não se preocupa com a atitude que se adota
frente ao funcionamento do oráculo. Somos unicamente nós que estamos
confusos, porque tropeçamos repetidas vezes em nosso preconceito, ou
seja, a noção de causalidade. A antiga sabedoria oriental enfatiza
o fato de que o indivíduo inteligente compreende seus próprios
pensamentos, mas não se preocupa de modo algum com a forma como o faz.
Quanto menos se pense sobre a teoria do I Ching melhor se dormirá.
Parece-me que com base nesse exemplo, um leitor sem preconceitos estaria agora
em condições de, pelo menos, tentar formar uma opinião
aproximada sobre o modo de operar do I Ching.12 Mais não se pode esperar
de uma simples introdução. Se, através dessa demonstração,
consegui elucidar a fenomenologia psicológica do I Ching, terei alcançado
o meu propósito. Quanto aos milhares de perguntas, dúvidas e
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
ZURIQUE, 1949 C. G. JUNG
![]()

Êxito
Supremo - O Céu está de acordo com a nossa vontade.
Desgraça: Acontecimento ruim aos olhos dos outros e a nossos próprios
olhos.
A perseverança traz boa sorte: Podemos dar prosseguimento aos nossos
planos.
É propício ter um objetivo em vista: Desde que tenhamos um objetivo
determinado, podemos seguir adiante.
Sem erro ou culpa: Se os resultados não são bons, devem-se a circunstâncias
alheias à nossa vontade.
É favorável atravessar uma grande água: Podemos empreender
alguma coisa dificil ou viajar.
A perseverança traz desgraça: É melhor desistir dos nossos
planos
É propício ver o grande homem: Seremos recompensados se buscarmos
conselho e assistência de alguma pessoa de alto valor moral.
Arrependimento: consciência dos nossos erros.
Homem Superior, Nobre ou Santo Sábio: Homem de grande valor moral, capaz
de resistir firme e serenamente a forças que transformariam outros homens
(os homens inferiores) em joguetes. Invulnerável à glória
e à derrota, não gasta suas energias tentando o impossível.
"Os tolos o consideram ainda mais tolo; os sábios, um sábio
incomparável".
![]()

Este
hexagrama não sugere a quietude e a paralisação, mas sim
o desenvolvimento constante.
É necessário assimilar a força infatigável do movimento,
graças ao qual todas as coisas se realizam, e todos os empreendimentos
vingam.
é propício manter-se altivo e perseverante para alcançar
o sucesso.
![]()

É
necessário cautela, aceite a situação. Seja silencioso
e tranqüilo e aja com suavidade.
A perseverança trará boa sorte. em momentos como este, o hexagrama
diz que é necessário privar-se dos amigos e permanecer só
para conseguir pensar e agir com objetividade. Não é propício
tomar iniciativas, mas sim deixar-se conduzir pelos acontecimentos, adaptar-se
às circunstâncias e ser flexível.
IMAGEM: "O estado da Terra é a receptiva entrega. Assim o nobre,
com a grande amplitude de seu ser, sustenta o mundo externo".
![]()

Quase
tudo neste inicio é difícil. O caminho da retidão de ser
trilhado com determinação. Seja paciente e prestativo, aja com
calma e firmeza, não alimente o medo e a dúvida. Dê um novo
sentido à sua vida.
Uma fase de caos precede os tempos de ordem. Tudo está em movimento,
sem forma e obscuro, mas as perspectivas de êxito são excelentes.
Por isso, não se deve empreender coisa alguma, mas sim consolidar a situação
atual e saber aguardar com paciência, pois uma ação prematura
conduzirá ao fracasso.
IMAGEM: "Nuvens e trovão: a imagem da Dificuldade Inicial. Assim
o homem superior atua, discriminando e unindo".
![]()

A
ousadia traz progresso e sucesso. A atitude espontânea e irrefletida do
jovem não é um mal. Os sábios podem ser prejudicados pelo
peso de sua experiência.
Na insensatez dos jovens estão os germes de um revolucionário
de metas claras.A falta de experiência não impede que o sucesso
chegue.
IMAGEM: " Sob a montanha surge um poço cheio de água: imagem
da Imaturidade Juvenil.
Assim, o homem superior, pela sua conduta e atuação escrupulosa,
alimenta seu caráter"
![]()

Há
perigo adiante, mas se for forte e firme ele não o envolverá.
O certo é não se meter em puros.
Esperar não implica abandonar um objetivo, mas sim permanecer calculadamente
inativo, até que o desenrolar dos acontecimentos ponha fim à condição
de perigo.
Após a espera, haverá grande sucesso
IMAGEM: "Nuvens elevam-se no céu: a imagem da Espera. De acordo
com isso o homem superior deleita-se com bebidas e comidas, mantendo-se alegre,
sereno e de bom humor.
![]()
![]()
| Trabalho feito, compilado e enviado ao Grupo Lux por Cleusa Bechelani - Novembro/2002
|
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()